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Martinela

SETENTA ANOS (1925-1975)

Há já setenta anos, mães queridas,
Nestas lindas aldeias do Arrabal,
Em humildes paninhos de enxoval
Nos deitavam, cantando enternecidas.

Em alcofas, mantinhos ou poceiras,
Vigiados por mães, avós e irmãos,
Dormimos nossos sonos, puros, sãos,
Muitas vezes á sombra das parreiras.

Entre orquestras de cabras e de ovelhas,
Cigarras, grilos, rãs, cães a ladrar,
Vimos o sol nascer e esbrasear,
A lua alumiar campos e telhas.

Brincámos com bugalhos e pedrinhas,
Com rodeiros de canas, com piões,
Com bexigas de porco, tais balões,
Com bonecas de trapos, pobrezinhas.

Com sacas de retalhos variados,
Levando dentro a lousa e um ponteiro
E o livro Maternal, nosso primeiro
Fomos, alguns, á escola apresentados.

Inesquecíveis dias lá passámos
Sentados sobre bancos pesadões,
A tentar aprender nossas lições,
Pois sempre a vara e a régua respeitámos.

Saímos a correr para o recreio,
Comemos a brincar, no intervalo,
Sardinha, queijo ou ovo, com regalo,
Num naco de broa aberto ao meio.

Fomos à catequese e decorámos
a doutrina sagrada do Senhor;
Comungámos de branco e com fervor,
Até horas da tarde, jejuámos.

Crescendo e trabalhando, árduamente,
Fomos chegando à nossa mocidade,
Crendo ser o trabalho e a lealdade
Que davam pão e paz à nossa gente.

Descalças na lagoa ou no ribeiro,
Lavámos nossa roupa e em vida avessa,
De cântaro no ombro ou na cabeça,
Fomos às fontes de águas num carreiro.

Pastoreámos gados nos baldios,
Fomos à lenha, às pinhas e à caruma,
E apanhámos as vides uma a uma,
Para cozer o pão, livrar dos frios.

Fugindo às quentes horas estivais,
Vimos a lua a ir-se em madrugadas
A ceifar trigo e aveia ou em sachadas
Dos bastos milheirais e feijoais.

Para dar água às hortas, em secura
Com o suor correndo, junto à gola,
Puxando um balde preso e uma varola,
Passámos longas horas de amargura.

Transportámos poceiros, por encostas,
Cheios de cachos de uvas vindimadas;
Cavámos fundo a terra em roteadas,
Pelas vinhas, curvámos nossas costas.

Ao frio, ao vento e às chuvas outonais,
Uns, varejando, forte, as oliveiras,
Outras, de mãos no chão, sempre ligeiras,
Colhemos a azeitona de ollivais.

Na falta de trabalho ou invernias
roçávamos talhões de matagais,
Para a cama das plantas e animais,
Gastando, com proveito, os tristes dias.

Carregámos com cochos de argamassa;
Sob uma falca a serra endireitámos;
Para aprender ofício, executámos
trabalho explorado e até de graça.

Nos tempos que durou a Grande Guerra,
Vimos o sol nascer nas padarias,
Pois não chegava o pão, naqueles dias,
E a fome sobejava em nossa terra.

Mas nem tudo era mau; também havia
Uma conformidade majestosa,
E uma serenidade graciosa,
Que aos olhos nos traziam alegria.

Éramos mais unidos, mais parentes,
Mais confiantes, mais respeitadores
Mais seguros na fé e nos amores
Mais humildes, mais francos, mais valentes.

Sem grande alteração, uns cinquenta anos,
Assim fomos vivendo e os nossos pais,
Até que as subversões nacionais
Mudaram os costumes e os enganos.

Hoje, foram-se os pais e a amiga gente,
Foi-se o esposo ou a esposa de algum de nós,
Foram-se à vida os filhos e já sós
Nos achamos, num mundo diferente.

Porém, uma certeza nos ficou;
A vida evoluiu para melhor;
Creiamos que há um Ser superior
Que para venturosos nos criou;

Se o não fomos no mundo, há que esperar,
Pois cada um tem o que merece;
Deus como Rei premeia e não se esquece
De, como Pai, aos filhos perdoar.

Deixemos nós também, o bom exemplo
De alegrar o Senhor, com deligência
Em melhorar a nossa consciência,
Concorrer para o mundo ser um templo.

Temos ainda muito que fazer;
Arrepender, amar e perdoar;
Sentir que é nosso quem nos ajudar;
Agradecer a vida que Deus der;

Sentir que Deus é bom é paraíso;
Que somos filhos d'Ele e O desejamos;
Que pelo sofrimento o céu ganhamos;
E darmos às pessoas um sorriso.

Martinela, 7 de Junho de 1995

Celeste do Rosário Brites Soares Pinto

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